[Livro] – “Não há nada para vestir! – A roupa, o prazer e a punição”

Espero que gostem deste artigo tanto quanto eu. Ele foi originalmente escrito por Sylvie Kerviel, publicado pelo jornal francês Le Monde e traduzido por mim aqui para o blog. Segundo pesquisa realizada por mim mesma, ficou constatado que ainda não existe tradução do livro em questão, para a Língua Portuguesa.

Por que nos vestimos? Para nos mostrar ou para nos esconder? E para quem? Para nós mesmos ou para outrem? Longe de serem consideradas triviais, estas questões fazem parte de um estudo que foi desenvolvido, em co-autoria, por duas psicanalistas: Élise Ricadat e Lydia Taïeb e que foi humoristicamente intitulado pela frase que elas mais ouviram durante o processo: “Não há nada para vestir!”

Capa do livro: “Não há nada para vestir! – A roupa, o prazer e a punição” - Élise Ricadat e Lydia Taïeb

Alimentadas pelo testemunho que receberam dos pacientes, durante as consultas com os “doentes por roupas” – um mal muito mais comum entre as mulheres do que entre os homens, que diga-se de passagem, são quase ausentes no livro. “Não há nada para vestir!” explora, além dos casos patológicos, a íntima relação que temos com as nossas roupas. O livro mostra como uma questão que é tratada como prioridade, acaba mexendo, mesmo que de maneira sutil, com a imagem que temos de nós mesmos, com a construção da identidade e com a transmissão da noção de feminilidade.

“Na metáfora do próprio desejo, se este for comparado a um casamento em curso, veremos que a busca pela roupa ideal não é algo superficial.” Escreveu o psicanalista Philippe Grimbert, que é quem assina o prefácio do livro. “Modificando constantemente contornos e aparência, a pessoa reflete a necessidade de renovação diária, a fim de poder habitar seu corpo e sua época, ao mesmo tempo.” Na verdade, a pessoa está escondendo coisas por trás da escolha de um simples pedaço de pano; um gesto cotidiano, mas que, segundo as autoras, “revela o nosso inconsciente”.

E acredite, tudo isso pode ser herança da infância ou até mesmo de antes disso! Graças ao ultrassom, os pais conhecem o sexo do bebê antes mesmo do seu nascimento e aí começam a comprar as roupas – especialmente as mães – projetando nesta criança uma imagem idealizada, já que ela é trajada, com bastante antecedência, em um regristo que “a insere em uma história, onde há a divisão de gêneros sexuais (masculino e feminino), imaginando-se assim, a sua personalidade futura”, dizem as analistas. Existe, obviamente, margem para contestação. As especialistas ainda dizem que, quando o bebê é uma menina, por exemplo, existe um “jogo de espelhos”, que é travado entre ela e a mãe. Jogo este que será repetido entre a menina e as suas bonecas, no ato de “vestir e despir” o brinquedo, “segundo a sua visão de feminilidade”. Esta atividade, a princípio inofensiva é, na verdade, “um terreno fértil para a construção da identidade”, dizem as autoras.

Já na fase da adolescência, a roupa irá permitir que a garota assuma um corpo com formas visivelmente mais sensuais ou se “afogar” em roupas que não mostram suas formas e que acabam servindo como um tipo de “fortaleza”. “Durante esta fase, a vestimenta passa a inseri-la em um clã, sendo a assinatura que a une a determinada tribo.” Neste momento, a menina tem a oportunidade de desafiar os padrões impostos pela mãe, a fim de conquistar a sua própria noção de feminilidade. “A remodelação das imagens impostas pelos pais é essencial para a definição de si mesmo como um ser sexual, e a roupa é, neste momento, uma referência valiosa para a identificação com um grupo de membros, que irá apoiá-la neste momento decisivo.”

Se, durante a adolescência, a importância dada à vestimenta é considerada algo normal, é também nesta idade que, segundo as autoras, algumas garotas acabam por desenvolver a patologia [que foi objeto do estudo que deu origem ao livro em questão]. Foi de histórias de pacientes que sofrem do mal da busca incansável pela roupa perfeita, que Élise Ricadat e Lydia Taïeb fizeram a conexão entre o ato de buscar incansavelmente as peças perfeitas e a qualidade da relação entre mãe e filha. Por trás do desejo incontrolável de encher o guarda-roupa, se detecta um desconforto de efeito rápido, mas que é suficiente para revelar uma vida vazia, sem identidade. Em seguida, vem a dependência das compras, que serve como um chamariz para a sensação de invisibilidade. A partir dai, as roupas passam a servir como “muletas”, a fim de sustentar uma auto-imagem falha.

Traduzido de: Le Monde

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